
Recuo a Outubro de 1958. Não me recordo mas guardo a descrição feita pela minha Mãe Maria. Teremos tardado 26 horas entre o Porto e a Beira. Viagem de avião com 2-3 escalas. O meu irmão com apenas 9 meses também nos acompanhou. Uma Mãe Maria, guerreira e cheia de força acaba por rumar connosco para junto do meu Pai Zé, que estava no Fingoé, Provincia de Tete, a lutar pela vida que cá não encontrava saída. Tempos difíceis e similares aos de hoje em que famílias se dividem para buscar alternativa ao sustento do clã.
E ficou-me esta paixão por Moçambique, País onde vivi até aos 8 anos. Regresso precoce à Metrópole, em 1964, porque alguém da Frelimo, amigo do meu Pai nos avisou que a "borrasca iria começar" com entrada por Cabo Delgado. Foram 6 anos que aprendi a gostar e fiz esta minha meninice na companhia de crianças negras, onde nada me faltou. Tive aventuras no mato, com os demais companheiros. Como autóctenes, conheciam melhor o sítio e por várias vezes estivemos 1-2 e até 3 dias com a liberdade de viver no mato. Subsistimos à fome, aos perigos de animais selvagens. Resistimos. Não conseguíamos era safar-nos de um bom castigo dado pelo Daimone, negro "casado" com 5 mulheres e com uma grande prole a que nos associavamos eu e o meu irmão. É que os meus pais, em dado período, só nos viam aos fins de semana. Tempos fabulosos que fizeram de mim um Moçambicano.
Esta noite, mais uma vez o coração está dividido, como no tempo de Adrião, Velasco e Cia, em que o Desportivo de Lourenço Marques vinha à Metrópole disputar o Título Nacional. E dividido ainda porque na equipa dos Ngonhamas ( Leões, em linguagem local), temos também atletas que passaram pelos Leões de Lisboa ( Filipe Nabais de apenas 16 anos ) e ainda Igor Alves e Marinho Rodrigues ( seniores do SCP ).

COM O CORAÇÃO DIVIDIDO POR TER PASSADO ANOS EM MOÇAMBIQUE, ONDE CRIEI ALGUMAS RAIZES. MAS NESTA DISPUTA NÃO DEIXAREI DE SER PORTUGUÊS E QUE SOBRETUDO SEJA UM HINO AO FAIR-PLAY E HONRA À MODALIDADE!
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